AS OLIMPÍADAS, A EDUCAÇÃO FÍSICA E A TOCHA

Por.: (Felipe Senra)

A tocha chegou ao Brasil e reaqueceu as discussões acerca dos jogos olímpicos. Quando o Rio de Janeiro foi escolhido sede das olímpiadas em 2009 comemorei com certa desconfiança. Mas existia muita esperança de mudanças no cenário esportivo nacional. Teríamos sete anos para iniciarmos transformações e mudanças no esporte nacional. Logo em 2010, participei do ENEEF (Encontro Nacional de Estudantes de Educação Física) Ceará onde o tema era Megaeventos esportivos, foi a primeira vez que ouvi esse termo e foi muito interessante ver o posicionamento de estudantes de todo o Brasil acerca desse tema.

O movimento olímpico, os ideais olímpicos refundados pelo Barão Pierri de Coubertin resgataram da Grécia antiga os valores olímpicos: amizade, respeito e excelência. Foram e são um movimento importante que busca através do esporte a união e a paz entre os povos. Entretanto não podemos esquecer que vivemos numa sociedade capitalista e existem diversas contradições e o esporte e o olimpismo são um reflexo e até atores dessas contradições. Acredito ser importante conhecermos esses fenômenos e sermos atores sociais para esclarecer e transformar estas contradições.

Um debate interessante é o papel que os jogos olímpicos atual tem na mudança na dinâmica das cidades sede. O professor Carlos Vainer é especialista no assunto e apresentou suas principais ideias no programa Juca Entrevista (https://www.youtube.com/watch?v=ZKDRaZXajIg). Está claro que os maiores beneficiados (mais até que o próprio esporte) são as construtoras e o setor imobiliário das cidades. A cidade então passa a se transformar em cidade empresa ou cidade negócio. Assista a entrevista no link para se aprofundar no assunto.

O que fica depois dos megaeventos esportivos para benefício da população. Muitos relativizam e dizem ser difícil dimensionar o legado imaterial que o jogos olímpicos é capaz de deixar. Legados esses subjetivos e até objetivos como, por exemplo: esperança, segurança, relações sociais, aumento da prática de atividade física e etc. Já tivemos duas experiência péssimas quanto aos legados do Pan 2007 e da Copa e me parece que grande parte do legado da Rio 2016 prometido não será cumprido, como dois dos mais importantes, a despoluição da baia de Guanabara e o metro zona sul – Barra (linha 4) (http://oglobo.globo.com/rio/inauguracao-da-linha-4-do-metro-ate-gavea-adiada-para-2018-18988422). O legado talvez seja uma “desculpa” dos governos para a população para justificar investimentos nos Megaeventos esportivos. Governos devem investir na cidades através das demandas que as cidades precisam e não investirem para servirem setores imobiliários ou da construção civil, como no exemplo das olimpiadas.

De acordo com a Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998. O desporto pode ser reconhecido nas seguintes manifestações: I - desporto educacional ou esporte-educação, praticado na educação básica e superior e em formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a competitividade excessiva de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer; II - desporto de participação, praticado de modo voluntário, caracterizado pela liberdade lúdica, com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, a promoção da saúde e da educação, e a preservação do meio ambiente;III - desporto de rendimento, praticado segundo as disposições da Lei nº 9.615, de 1998, e das regras de prática desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter resultados de superação ou de performance relacionados aos esportes e de integrar pessoas e comunidades do País e de outras nações. 

(http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2013/Decreto/D7984.htm).

           

Desde o anúncio em 2009 até hoje podemos afirmar que tivemos evolução do esporte nestes 3 segmentos? Acredito que não, talvez tivemos até uma involução. O desporto educacional e o desporto de participação enquanto políticas públicas do governo federal, governos estaduais e municipais praticamente inexistiram. E o aumento da participação do desporto de rendimento através do fortalecimento de clubes e da inciativa privada, apesar de investimentos do governo federal em projetos como bolsa-atleta vão se mostrando ineficientes para a melhora do esporte de rendimento no país.

Outro ponto a ser debatido são as federações esportivas que tem a missão de fomentar o esporte no país e muitas são ineficientes e envolvidas em escândalos de corrupção como a então modelo CBV (http://oglobo.globo.com/esportes/apos-serem-constatadas-irregularidades-de-30-milhoes-na-cbv-banco-do-brasil-suspende-patrocinio-14807120). As Leis de incentivo, ICMS esportivo e demais formas de se arrecadar dinheiro e transformar dinheiro de impostos em investimento para o esporte pode ter fomentado alguns projetos esportivos, mas ainda sim a situação está muito longe do que seria ideal e aceitável.

O desporto educacional não tem cumprido todo o seu potencial transformador devido a diversos fatores, poderia citar um fator relevante como a falta de estrutura mínima para as aulas de Educação Física. A quase inexistência desporto de participação é fruto da lógica atual das nossas  cidades onde o espaço público e atividades coletivas são cada vez mais raras, devido a violência e a escolha de uma vida mais individualizada. As pessoas acabam preferindo atividades como pilates, treinamento funcional, lutas e treinamento de força do que atividades em grupos.

(Felipe Senra, professor de Eduação Física)